Relatos do Bule ou Jacarandás no Inferno

Paulo Ferreira da Cunha
Universidade do Porto

Capítulo XI
Vocação e Profissão

Uma varanda muito larga, espaçosa, arejada, rodeava aquela construção singular. Nunca dela falaremos o suficiente: vê-se a toda a volta essa varanda, que abraça o edifício. Mas não se distingue uniformemente em seu redor. Isto porque a casa se encontra entre rochedos e dunas, ora dissimulada na paisagem, ora assemelhando-se a uma grande concha de que o conjunto varanda-escadas de serviço constituiria as volutas.

Cá fora, além de areia quanto baste da aproximação marítima, há todavia um elemento de paisagem humanizada: é um gazão verde, verdíssimo como só o mítico dos vizinhos (que ali estão a boa distância de segurança), cortado por um fio que se descobre depois ser o carreiro da bicicleta.

Foi a este cenário hoje especialmente ameno, porque estamos num verão temperado e de mar calmo e muito transparente, no seu azul quase mediterrânico, foi a este cenário dizíamos, que, vindo de uma saudade longínqua, chegou um novo visitante.

Guilherme, por muito britânico nos modos que pareça ser, não tem mordomo. Veio muito simplesmente, em mangas de camisa (nunca se habituou completamente aos pólos) abrir a porta, pois era dia de folga da sua governanta-cozinheira.

Sempre que atendia à porta, fazia-o com algum enfado. Não que sentisse o caráter servil da função, que aliás nem o era, por tão esporadicamente exercida. Considerava, por más experiências, que muito raramente iria ter boas novidades com esse desvendar de intimidade (ainda que jamais convidasse estranhos sequer para o vestíbulo). De resto, era uma sensação semelhante à que experimentava atendendo o telefone. O acumular de más notícias tinha-lhe feito olvidar por completo os tempos de adolescência e juventude em que se espraiava, como um gato ao sol, gozando os prazeres da conversação telefónica com amigos faladores. Na verdade, sobretudo amigas... Bons tempos que já nem lhe passavam pela memória gasta em labores demasiado intelectuais e excessivamente académicos.

Isto, para explicar como Guilherme se sentia sempre enfadado e interrompido com o bater à porta ou o retinir do telefone.

Mas, desta vez, não eram cobradores, nem vendedores, nem estatísticas, nem maçadores de todo o género. Era uma imagem vinda do passado, e muito grata: a do seu velho amigo Ricardo. Ricardo era um homem pouco comum. Como um cometa, aparecia e desaparecia na vida de Guilherme, anunciando ou mesmo catalizando eventos importantes. Não era um entusiasta, nem sequer um sugestionador. A sua presença de homem alto, muito branco, lábios finos, olhos cinzentos, cabelo agora já da mesma cor, de uma vitalidade contida, de uma naturalidade que se impunha, essa presença parecia bastar a Guilherme para considerar e reconsiderar, pôr em ebulição a sua poderosa máquina mental, dar combustão ao seu sensível músculo pensador — e pronto, sem que disso talvez se desse conta, aí tínhamos um novo Guilherme. E nessa altura, agora sem que disso se houvesse este apercebido, já o outro estava a quilómetros de distância.

Com mais ninguém estabelecera Guilherme (ou melhor, naturalmente se consolidara) uma amizade tão singular. Mas como nos demorámos nós hoje, se o que nos importa são diálogos! Poupamos o leitor das exclamações, cumprimentos e questões de circunstância, que nos espíritos superiores, pouco adaptados como sobretudo o de Guilherme, à convenção social, sendo basicamente os mesmos, comuns a toda a gente, têm a ingrata característica de saírem falsos ou em tom de falsete. Infortúnios dos compromissos para com a sinceridade, e falta de treino do supérfluo...

Portanto, surpreendamos já os dois amigos nessa varanda prodigiosa por onde começáramos o nosso relato:

— Então, meu caro Guilherme, decididamente tu gozas a vida. Uma casa assim, num local destes... não sou homem para te falar na fortuna que custou. Mas interesso-me por ti: como é possível viveres aqui encarcerado, ainda que num palácio doirado?

Como se vê, Ricardo tinha vários dons. Por um lado, uma constante impercetível de subtileza, que em si era, mais que instintiva, a própria resultante de uma franqueza delicada, sem pose. Era um esteta. E punha na vida e na linguagem o cuidado de não macular uma obra- prima. Mesmo que isso lhe custasse... enfim, o que custasse! Por outro lado, e em curiosa sintonia e harmonia com essa refinada forma de estar, Ricardo possuía o dom de um moderado paradoxo, e de surpresa. Ao mesmo tempo que elogiava a bela vida de Guilherme, parecia espicaçá-lo sobre o seu exílio.

— Exílio doirado, meu Ricardo. Exílio doirado, Graças a Deus! — Guilherme, que andava ultimamente um tanto sorumbático, mastigava, melhor, saboreava pesadamente cada uma destas palavras, como que revendo interior- mente o seu significado, os seus significados, num caleidoscópio de referências, citações, conotações.

O outro, jovial, interrompeu-lhe um murmúrio que se arriscava a eternizar-se:

— Exílio doirado. Eis uma expressão curiosa, não achas? Hoje pode haver exílios doirados, porque os homens são cosmopolitas, já não amam verdadeiramente nenhuma terra. Já não se pode suspirar, como Dante, pela Pátria. Ou, no pólo oposto, já não se pode rogar como praga final ao solo materno que, ingrato, nos não roerá os ossos! Visivelmente, Ricardo utilizava os seus argumentos de cultura (que também a possuía) para distrair o amigo. É digno de severo e aturado estudo este fenómeno singular entre os intelectuais honestos e autênticos: o verem-se distraídos de suas dores por simples e até banais solicitações da cultura. Daí que o frio Montesquieu não seja (de longe) o único a quem duas horas de (boa) leitura não distraíam de grandes males. Será porque as dores dos atletas do cérebro são, afinal, simplesmente fantasmas mentais? Ou é esta uma manifestação cabal dos efeitos curativos da distração, à qual os cerebrais são (seriam) mais vulneráveis? Seja como for, Guilherme despertou. Mas em lugar de se embrenhar pela sua erudição adentro em matéria de exílios, foi direito ao assunto. Junto de Ricardo, gostava de afetar ares de homem prático. E procurava, assim, abafar o mais possível (mas nem sempre com êxito) as suas frequentes tentações eruditas e especulativas. Atalhou:

— Em boa verdade, meu caro, nem sequer é um exílio doirado. É um ostracismo, e involuntário, que a sorte (e algum engenho, confesso) colocaram num local aprazível. Mas é ostracismo. Além disso, o mundo moderno tem vários exílios. Há exílios éticos no interior da cidade, há até exílios sazonais. Cada vez conheço mais dessesexilados, que, chocados com o mal que a república real faz à república ideal (como diria Álvaro Ribeiro) procuram ainda que intermitentemente outros ares, para depois poderem voltar com mais força.

Mas eu não me lamento... O meu ostracismo não chega a exílio.

— Queres tu dizer que não vives aqui por prazer? Quem é o génio que te encerra? Ou — pois que falas de ostracismo — que pérfida assembleia te privou da cidadania? Guilherme, tu intrigas-me. Não te sabia...

— Deixa-te de partes... Este é o refúgio de um acossado, de um... como direi? De um pária social.

— O senhor lente Guilherme de não sei de quantos, cheio de títulos e diplomas, glória internacional da nossa cultura, autor do Templo de Sisa, da ponte de Benevilágua, e – diga-se – do chafariz de Diomeno, é um pária. Boa! Que dizer de...

— Não é disso que se trata. Repara, por exemplo, apenas nisto: este teu Guilherme é visto pelos vizinhos (e felizmente são poucos e afastados) como uma espécie de cientista louco, com a agravante de nem cientista ser.

— E daí?

— Mas há mais. Quem me conhecer um pouco mais de perto, como, por exemplo, o carteiro, ou mesmo a pobre da minha governanta, que julgas que pensam de mim? Têm-me, evidentemente, por um privilegiado, mas, pior ainda, por um inútil.

— Que exagero! — Mas Guilherme não dava agora ao amigo a mínima hipótese de comentar... As palavras saíam-lhe de forma torrencial, embora se não pudesse considerar o seu discurso nem coerente, nem eloquente. Ricardo acabou por se conformar com a passiva condição de ouvinte. E Guilherme prosseguia:

— Ora, nesta sociedade em que vivemos, um inútil é o pior que existe. Repara: levanto-me tarde. Deito-me tarde. Fumo. Bebo. Como bem. Não trabalho regularmente. Veem-me (quando me veem) ir à Universidade uma ou duas vezes por semana, à tarde. Não percebem o que posso eu fazer na Biblioteca...

— Mas - conseguiu finalmente interromper Ricardo -  os teus colegas e os teus alunos, esses, que são do mesmo métier, esses compreendem-te, apreciam-te, reconhecem-te.

— Uma grandessíssima ova!

Ricardo teve um arrepio. Nenhum dos dois dizia obscenidades, ainda que desse tipo ligeiro. Isto pô-lo de sobreaviso. Guilherme estava deveras irritado. Havia por detrás daquela enorme capa de enorme bonomia, alguns assuntos - ou algumas opiniões - que se revelavam severíssimo tabu. Ricardo retomou a sua posição na varanda, a três quartos, entre o mar e a fúria do amigo:

— Tu sabes lá o que é hoje a Universidade! Nem eu sou nada de especial, para ser reconhecido... mas o mais importante: já não há quem reconheça. Tu lembras-te dos nossos mestres, Ricardo? Oh, que saudades! Já morreram quase todos. E tu nunca os veneraste como eu! Ah, eu venero-os ainda. Vem cá!

Surpreendentemente, Guilherme estava mais calmo. Dir-se-ia que passara num instante do desespero à amargura, e depois, subitamente, conhecera a calma. Uma calma que, porém, tinha algo dessa paz que paira sobre as necrópoles depois do choro da morte, quando à fria manhã do enterro sucede o sol de uma tarde de cicatrização. Guilherme agarrara com força, mas sem brutalidade, no braço de Ricardo e levava-o para dentro.

Por um corredor estreito e decorado com troféus estranhos penetraram no sacrário: o escritório.

Ricardo ficou boquiaberto.

— Estão aqui todos! - balbuciou.

— Estão aqui todos os grandes!  - confirmou, solene e triunfante, o professor. Ao longo das paredes, ou entre os espaços das prateleiras que as forravam, retratos de personagens graves ou amáveis, mas todos com ar sapiente, pareciam convidar ao estudo, à reflexão. Era uma galeria de família. Só que de uma família espiritual.

— Noto algumas ausências... É boa! Muito significativas ausências.

— Claro! Só merecem estar aqui os Mestres, mas não os professores. Mas repara: trouxe-te aqui para te dizer como sinto saudades deles. Como o espírito universitário definha sem eles. E respondendo à tua já muito esquecida pergunta, como, depois deles, já não há quem me compreenda, e jamais quem me possa avaliar. Nem a mim, nem a ninguém.

— Mas eles tiveram discípulos. Tu és um exemplo disso. Eu não, que não sigo senão o meu destino, mas tu, e outros...

— Eu fui um discípulo muito tardio, sabes. Os meus Mestres já tinham tido demasiadas desilusões, já haviam conhecido excessivos Brutus (embora Brutus fosse um herói da liberdade! Pobre julgamento da História!). Eu e os meus colegas (tu és disso exemplo) tivemos a sina de admirar de longe, sem ser admitidos ao discipulato. Alguns, porque não foram reconhecidos nos seus muitos talentos, desistiram, seguiram profissões práticas. Eu continuei, mas tomaram- me por estrangeirado, por autodidata, por - sei l! - jamais fui tido por um dos nossos, por discípulo, nem dos colegas por camarada, aliás eu sei lá!

... Eles nem sonhariam que eu guardo aqui os seus retratos. Nunca sonharam! Eu, aliás, não gostava de me confessar. Nunca tive queda para a capelinha, a louvaminha, a academite. Preferia criticar, por vezes como prova até de amor, de dedicação. Nunca entenderam - salvo dois ou três - que eu não era um contestatário. Refugiaram-se em ter-me por bizarro. Não me perdoaram, por exemplo, a oscilação entre a História da Arte e o Projeto. Alguns olharam-me como diletante.

— Contudo, creio que, no final de contas, isso te ajudou.

— Ah, sim. Sem dúvida. Pareci menos perigoso. Sobretudo menos concorrente, enquanto estudava os Pintores antigos, eles negociavam com Governos e Câmaras Municipais grandes empreendimentos imobiliários. A minha carreira académica foi obviamente beneficiada por jamais ter entrado no mercado das grandes obras. Bom, na verdade não sei...

— É isso mesmo. Mas como é essa questão do discipulato? Como te enquadraste? E os verdadeiros mestres? O arquiteto Rolando, por exemplo... Olha como ele aqui está bem. Belo óleo...

— Não é fácil a relação, mesmo com os mestres queridos. A minha timidez impediu-me de lhes prestar o tributo que mereciam. Em contrapartida, alguns colegas, mesmo dos novatos e que já nada entendiam, fizeram discursos, promoveram homenagens... e, como é óbvio, como novos ricos de um discipulato que nunca existiu, trataram de apagar a memória dos primeiros discípulos. Não me queixo pessoalmente (sempre achei essas manifestações muito postiças, e sou mais que alérgico a certas companhias), mas houve quem se sentisse por não ter sido citado nem convidado. E com carradas de razão...

— Mas, mesmo assim, seguiste a carreira...

— É o meu drama. Dás-me uma deixa fundamental. Tenho-o dito sempre: sou professor porque sou preguiçoso. Não tive coragem de sair da universidade... Quer dizer: quase não sei fazer mais nada senão estudar. Por isso, é que sou o tal pária. Quem é que hoje (e sempre) valoriza tal apetência?! O que construí foi fruto de inspiração e sorte momentânea. Mas saberás que não cobrei nada pelo templo, pela ponte e pelo chafariz.. Já que quiseste estilizar em três géneros a minha escassa produção arquitetural.

— Não brinques. Nada mesmo?

— Nada. Tive um grande prazer nesse trabalho. E nessa altura eu julgava que era um historiador de Arte a brincar ao arquiteto. Tenho a impressão que foi até por não ter cobrado nada que deixaram de me mandar encomendas. Como sabes, este ramo vive muito da ostentação. A Cátedra não chega para avalizar uma reputação, longe disso. Teria sido preciso que eu esmifrasse o cliente. E me desse ares mais exóticos. Aí sim. Chapéu às três pancadas, bigode espetado, adesivos na cara, sei lá... Coisas piores, coisas piores. Uma meia de cada cor...

— Dizes que a Cátedra não chega... Tenho ouvido por aí alguns rumores sobre a universidade. Só alguma coisa... Como sabes, estou fora desde que me formei. Nem preciso de reciclagens, não exerço mesmo. É verdade a queda de nível e tudo o mais?

— Ah, que feliz tu és, Ricardo! O que estás agora mesmo a fazer? Digo, profissionalmente...

— Bem, como sabes, tenho umas propriedades, umas rendas, e a minha Mulher...

— Ah, tu casaste?! Perdoa, pois é. Tinha-me esquecido. Pois claro, fui ao casamento. Pois, desculpa...

Ricardo administrava bens seus e da consorte. Toleraria que lhe chamassem capitalista, mas ficou embaraçado com este esquecimento do seu estado civil. Na realidade, ficava-o porque ele próprio já não percebia bem se era vero estado civil ou somente estado financeiro. Distraía-se disso. Financeiro por obrigação, era um contemplativo. Guilherme nunca associara Ricardo ao matrimónio. Tinha-o por homem das sete partidas. E jamais assimilava o amigo às finanças ou à gestão, porque o julgava poeta. Um desses poetas que não versejam, mas afirmam de dez em dez anos uma frase sibilina que nos dá para o consumo de toda a década. Daí a confusão. Daí, e da ausência permanente da esposa de Ricardo, cujo nome Guilherme nunca se dera sequer ao trabalho de reter.

O entendimento entre os dois subentendia esta exclusão, pelo que o vago rebate de consciência de Ricardo destoara. Era, porém, sacrifício às boas contas de homem honesto.

— Pois Ricardo, tu és feliz! Geres fortunas. Vives sem intermediários, sem funcionários, sem chatos, não é? Não tens de contactar com novos doutores, ou tens?

— Não, realmente. Temos lá em casa uma secretária muito antiga, que é quase como uma velha tia; dinâmica, prudente, sábia. Com noções de contabilidade. E, no exterior, há um procurador. Aliás, nenhum deles é sequer licencia- do. Ele é um homem de bem...

— Não sabes a sorte que tens!

— Por não serem licenciados?

— Isso nada importa. Por serem competentes. Dos trabalhadores. Aposto que amam a sua profissão. Que gostam do seu trabalho. Que és tu quem lhes sobe espontaneamente aos vencimentos. Que são pessoas honestas. E que são felizes!

— Tudo isso é verdade! Queres tu dizer que agora...

— Os chatos dos que hoje se formam são uns tristes duns egoístas, preguiçosos, mimados, incompetentes, vigaristas, e uns desgraçados sempre descontentes.

— Que exagero! Tenho uns sobrinhos...

— Pois. Que te querem ganhar a herança...

Por vezes, Guilherme tornava-se rude. Nos tais assuntos tabu. Ricardo compreendeu, (algo melindrado, porém) que não dera o exemplo conveniente. E pas- sou a pôr os pontos nos ii:

— Não compreendo como é que os nossos professores, educados no no fascismo, de uma forma geral sisudos, absentistas, longínquos, dando pouca matéria e perguntando muito, avaros nas notas, petulantes e até insolentes — desculpa, mas eu tenho uma imagem diferente da tua dessa escola idílica — não compreendo como é que eles formaram gente dessa. Há aí algo de errado!

— Muito bem! Até talvez possa concordar contigo num ou noutro pormenor. É preciso, todavia, que me ouças.

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