Toda a verdade sobre as universidades estrangeiras

O que você queria saber sobre as carreiras docentes no estrangeiro e nunca teve a oportunidade de perguntar a quem realmente sabe...

Stamatios Tzitis: "Um professor na Grécia tem, em média, 6 horas de aulas semanais"

No seguimento da entrevista publicada na edição anterior da nossa revista com o Prof. François Valançon, na qual foram debatidas temáticas relacionadas com o ensino superior em França, publicamos agora uma segunda entrevista, esta com o investigador greco-francês Stamatios Tzitis.

Estamos num apartamento parisiense. Alguns ícones gregos plurisseculares dão um tom de exotismo a um ambiente de fino décor francês. Também aqui, os clássicos. E em grego...
 

 ES - Comecemos pelo trabalho, porque dizem que trabalhamos pouco. Como estamos, em França e na Grécia, de trabalho docente?
ST - Dou-lhe dados objectivos. Oficialmente, um docente dá 128 horas anuais de aulas teóricas ou, alternativamente, 150 de aulas práticas. Há ainda o tempo de recepção aos alunos para conversar sobre os seus ensaios e teses. E não se fala do tempo de investigação, claro... Também não contabilizamos o tempo de reuniões e equipas científicas... Na Grécia, em regra, um professor tem 6 horas de aulas semanais. Do mesmo modo, acrescem algumas entrevistas com alunos e reuniões académicas.

ES - Falando de tempo... Parece que a formação de um advogado em França é bastante longa. Como é na Grécia?
ST
- Na Grécia é menos complicado. Faz-se um estágio com um advogado, enquanto se acumula um certo número de presenças em tribunal. Ao cabo de um ano devem prestar-se provas na cidade onde se deseja exercer a profissão.

ES - É um sistema parecido com o antigo português. Mas se vier a ser instituída na União Europeia uma formação jurídica de 4 anos apenas, isso chegará para formar um advogado?
ST
- Quanto a isso não poderia ter senão uma resposta muito reservada. Apenas quatro anos? Honestamente, penso que tal não será possível.

ES - As mudanças estão por toda a parte. E parece que em tudo se caminha para a facilitação, para o encurtamento. Parece que começam a ver-se teses doutorais de 200 páginas, feitas em 2 ou 3 anos. Sabemos que em França o sistema é rigoroso, e mesmo os 4 anos da lei são muitas vezes excedidos, a pedido dos próprios candidatos. Mas isso é possível na Grécia?
ST
- Está fora de questão que se possa ser professor com uma tese de apenas 200 páginas, quer na Grécia quer em França. Aliás, em França é quase impossível apresentar-se uma tese universitária com apenas 200 páginas.

ES - Há por cá quem queira acabar mesmo com a agregação...
ST
- Em França é necessária a agregação para se ser professor (catedrático). É um concurso nacional. Na Grécia, infelizmente, o sistema da agregação não existe. O concurso baseia-se nos trabalhos apresentados e depende do corpo docente da universidade que abre a vaga. Deste modo, se é verdade que as condições do concurso se aplicam a todas as universidades, pode suceder que as condições não sejam absolutamente idênticas. Não existe a mesma transparência que o concurso de agregação assegura em França...

ES - Como é a carreira docente na Grécia? Quais os graus do cursus honorum et studiorum? Pode compará-la com a francesa, em termos gerais?
ST
- A carreira na Grécia é mais complexa, quanto aos graus, que a francesa. Começa-se como leitor, depois professor auxiliar, depois professor substituto, e finalmente professor ordinário...

ES - É praticamente como a nossa, se chamarmos assistentes aos leitores, e associados aos substitutos, e ordinários aos catedráticos... A propósito, pode explicar-nos a diferença francesa entre o doutoramento de Estado e o actual?
ST
- A tese de Estado é considerada superior à de Universidade, embora haja, evidentemente, teses de Universidade tão notáveis como as primeiras. Em termos práticos, o maître de conférences francês tem de ter uma Habilitação para orientar teses, o que não é requerido para os doutores de Estado. Mas esta tese já não existe. Há uma coisa curiosa, que é muito divertida na Grécia: Para se candidatar a um lugar de professor na Grécia, um doutor de Estado em França tem de pedir a equivalência da tese de Universidade grega, equivalência essa que não é automática...

ES - E ainda se fala de União Europeia... Aqui em Portugal também houve disso, e também houve tempo em que se não aceitava o certificado de doutoramento francês, porque a lei exigia literalmente... um diploma...
ST
- Mais um efeito da burocracia fundada no positivismo jurídico. Contrariamente aos gregos, os franceses não afixam nas paredes os seus diplomas...

ES - (sorrisos) Falemos de ameaças do presente. Uma delas é a avaliação não integrada do mérito. Como investigador, conhece bem os sistemas de avaliação...
ST
- Antes de mais, é preciso ter-se presente que, na investigação do CNRS, há dois graus: o de investigador (chargé de recherche) e o de director de investigação. O primeiro é equivalente a maître de conférences e o segundo ao professor catedrático. Ora a avaliação da actividade científica dos investigadores é feita por uma comissão nacional, composta por especialistas das secções (secção de matemáticas, filosofia, direito...). De dois em dois anos, o investigador tem de apresentar um dossier pormenorizado da sua actividade científica. Os professores, todavia, não estão sujeitos a este procedimento, só os investigadores. Mas é importante sublinhar que a comissão é constituída por professores e investigadores. E é frequente que os professores investiguem nos centros ou laboratórios do CNRS, e que os investigadores leccionem nas Universidades. Isto não existe na Grécia. Em França há uma estreita colaboração entre investigadores e professores.

ES - E na Grécia?
ST
- A investigação, sem dúvida, em geral nas ciências humanas, e designadamente no Direito, está na Grécia carecida daquelas infra-estruturas de que se vê dotada em França. Por isso, não é nada invulgar que numerosos estudantes de doutoramento continuem os seus estudos fora das fronteiras helénicas...

ES - É o que nos pode acontecer a nós... Já agora, pode falar-nos um pouco das questões salariais da investigação?
ST
- Um director de investigação no sector privado ganha muito mais que um director de investigação no CNRS. Mas temos a vantagem da estabilidade, o que nem sempre acontece no sector privado. Na Grécia, em relação com o nível de vida, de acordo com o que me dizem os meus colegas, o salário de um catedrático é mais avultado que o de um director de investigação do CNRS, e sem dúvida relativamente ao de um catedrático francês.

ES - E podem acumular-se funções com as docentes?
ST
- Sim. Na Grécia pode facilmente obter-se um acréscimo de salário, em certas condições. Um magistrado, um advogado, um consultor jurídico pode acumular com a docência universitária...

ES - Também com a Grécia temos coisas a aprender.

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