Reflexões em Torno da Autonomia e Autonomização

Olga de Castro
Professora do Ensino Superior (ESEP), Doutoranda em Ciências da Educação na Universidade do Porto e Mestre em Ciências da Educação

 

Resumo

 

Este artigo enfoca uma reflexão sobre autonomia e autonomização enquanto realidade implícita das condutas inerentes à construção da personalidade e integração social do ser humano. Traçamos uma trajetória simples dos modelos interativos educacionais e sociais implicados na construção do eu humano e na sua independência aos diferentes níveis de atuação. Realizamos uma breve explanação sobre o conceito e níveis da autonomia, seguida de uma reflexão sobre as influências e modelos de intervenção na construção da autonomia, enfatizando o que conduz a uma prática que propicia a independência e a conquista da liberdade individual no confronto das interações sociais e socializadoras partindo das oportunidades de cada um, dentro das determinantes de autonomia para a autonomização.

 

Introdução

Do ponto de vista etimológico, a palavra "autonomia" tem origem grega, formada pelo adjetivo autos, que significa "o mesmo", "ele mesmo", "por si mesmo" e pela palavra nomos que significa compartilhar","instituição","uso","lei","convenção", competência humana, "dar-se nas suas próprias leis" e implica propriedade constitutiva da pessoa humana, na medida em que lhe cabe escolher as suas normas e valores, fazer projetos, tomar decisões e agir em consequência dessas escolhas (SCHRANM, 2005).

Autonomia indica a capacidade de uma pessoa ser capaz de se autogovernar, de se orientar e tornar-se independente (KULBOK, 2004).

 NOOM (1999) define a autonomia como a habilidade para dirigir a própria vida, para definir metas, comunicar e interagir, sentimentos de competência e habilidade para comunicar, interagir, regular as próprias ações, decisões e atitudes.

A autonomia constrói-se a partir da ação individual, na medida em que não se encontra isolada no indivíduo, implica sociabilidade, moralidade e escolha racional (Kant (1948).

Para DURKHEIM e PIAGET (citados por GOLDIM, 2004) a Autonomia é a interiorização das normas e implica capacidade de coordenação de diferentes perspetivas sociais com base no respeito recíproco.

Ao entendermos o ser humano como pessoa com singularidade, unicidade, irrepetibilidade, dignidade e direitos próprios, a autonomia, procura estabelecer uma relação de construção da individualidade, promovendo uma cumplicidade recíproca que propicia o crescimento conjunto, fundamentada nas necessidades individuais, interesses e desejos que garantam a participação social.

Nesse sentido, reciprocidade e autonomia, enquanto vínculo social, devem basear-se numa construção intersubjetiva e pedagógica permanente que garanta a totalidade e integridade do ser humano.

A autonomia é entendida como a "maneira de gerir e orientar as diversas dependências em que os indivíduos e os grupos se encontram no seu meio biológico ou social, de acordo com as suas próprias leis." (BARROSO, 1996, p. 17, citado por MOURA, 1999)

Com a presente reflexão em torno da análise das categorias autonomia e autonomização, não pretendemos pôr em causa as razões dos seus diferentes conceitos ou modelos conceptuais, mas oferecer pistas de reflexão em torno do distanciamento que existe entre as práticas sociais e as visões adotas no conjunto das variáveis políticas, culturais e sociais implicadas na construção da autonomia individual ou mesmo coletiva.

 

Discussões conceptuais

Se admitirmos que os modos de pensar, sentir e agir dominantes em cada geração provêm de uma herança de modelos culturais conferidos pelo processo educacional, que, de algum modo, se exprime em representações coletivas, então, temos de valorizar a importância dos processos educativos e das políticas socioculturais na construção da autonomia. Sabendo que a vida dos seres humanos decorre no quadro de diversas Instituições (família, instituições políticas, laborais e sociais), enquanto agentes formadores, cabe-lhes particular relevância na construção da autonomia revelando-se nos dias atuais como unidade/célula imprescindível à formação da personalidade e por consequência à formação da autonomia.

É neste processo de interações que, mercê do fenómeno da comunicação humana, se geram conflitos, apaziguam ânimos, se constroem saberes e personalidades autónomas capazes de corresponder, eficazmente, às exigências de uma sociedade que se pretende em permanente transformação e atualização.

Neste contexto, a autonomia pode ser entendida como o fundamento da dignidade humana e da natureza racional (MORA, 2001). A identidade é necessária para que seja garantida a autonomia dentro de alguns princípios universais, tais como: diversidade, possibilidade, humanidade, ecologia, autonomia, identidade que asseguram a divergência ou a naturalidade humana.

Para SANTOS (2002), é necessário respeitar a diversidade cultural e, a partir dela, construir paradigmas de conhecimentos com base em relações pedagógicas autonomizantes, assumindo a dignidade humana como condicionante universal inquestionável.

Assim, autonomia pode ser entendida como emancipação individual mesmo que não ocorra distanciada da coletividade, (DEMO; 2003; SANTOS, 2002). Autonomia só existe enquanto atitude coletiva ligada à autossuficiência, autossustentação, autogestão e emancipação no sentido de cada ser humano se definir e ocupar um espaço próprio na sociedade. A relação interpessoal permite que cada um se sinta capaz de exercícios de liberdade e de ação crítica. É neste espaço intersubjetivo que o EU se implica de determinações na construção da consciência da autonomia.

Autonomia assume, então, uma dimensão social e individual, de domínio do consciente sobre o inconsciente, e implica instauração de uma relação entre o discurso do outro e o discurso do próprio (CASTORIADES, 2000). É nesse vínculo relacional que "a verdade própria do sujeito é sempre participação de uma verdade que se enraíza na sociedade e na história, mesmo quando o sujeito realiza a sua autonomia" (Idem p. 129).          

Não é possível separar autonomia de identidade, na medida em que podemos comprometer a autonomia com a comunidade, com os seus contextos, os seus sujeitos e as suas ações autónomas. Se existir autonomia é porque ela se construiu na comunidade com a ação do ser humano.

A autonomia enquanto amadurecimento do Eu implica um processo que se constitui pela experiência vivida e partilhada (FREIRE, 1996). Autonomia é independência, na medida em que independência refere-se à capacidade que cada ser humano têm de saber agir para tornar-se autónomo. Logo, autonomia é mais do que ter comportamentos de independência, uma vez que a autonomia prevê pensamentos, sentimentos e tomadas de decisão que envolvem o próprio indivíduo, dentro ou fora do seu ambiente sócio familiar e envolve transformações multidisciplinares e interativas. Autonomia não é independência acabada ou efetivada, mas antes uma ação permanente visualizada num continuum de crescimento do sujeito e da própria sociedade pelos processos permanentes de educação, formação e adaptação.

Assim, a autonomia não pode estar dependente de justificações de ordem económica ou ideológica, porque se constitui como um valor que capacita a nossa participação no percurso de todas as circunstâncias da vida. Por tudo isso, a autonomia é por excelência uma necessidade humana, uma vez que somente um indivíduo autónomo ("sujeito ativo") possui condições de entender as contradições que permeiam a sua vida no mundo em permanente interação no sentido da construção das mudanças qualitativas. Logo, a autonomia só pode ser entendida no âmbito do rompimento com as políticas sociais e culturais instituídas, muitas vezes perpetuadas no tempo, manifestadas em muitas situações pela dependência, pela submissão, pelo conformismo e pela alienação.

           

Autonomização

Como sabemos, nas sociedades, às gerações mais velhas cabe a responsabilidade de transmitir valores, conhecimento, experiência e vivências. Com o aumento do conhecimento e da globalização, vincado pelas novas tecnologias e pela influência dos meios de comunicação social, a dicotomia entre velho e jovem, entre o tradicional e o moderno, pronunciada entre gerações, implicou profundas mudanças no sistema social e, por consequência, na vida humana.

Por outro lado, os processos de desenvolvimento identificados pelas inovações tecnológicas e científicas implicaram a formulação de novas práticas e vieram, de certo modo, beneficiar os indivíduos, na medida em que influenciaram os seus mecanismos de ação e de responsabilização. Esse facto veio implicitamente exigir a participação de todos os setores no processo de tomada de decisões e consequentemente vincular a autonomia.

As políticas atuais sobre desenvolvimento têm colocado a tónica no crescimento económico, implicando, por isso, o acesso à informação e à instrução. As qualificações e capacidade organizativa fomentam a criação de benefícios centrados no crescimento económico e social por via dos processos de autonomização. Nesse contexto, a autonomização traduz-se na capacidade dos indivíduos e das organizações em defender os seus interesses, melhorar o conhecimento, tendo como propósito a construção plena da sociedade.

Assim, o conceito de autonomização engloba: participação, direitos e responsabilidades, formação de capacidades e/ou integração social (THEUNISSEN, 2001). A autonomização implica transferência de poderes individuais, oportunidade de tomar decisões que afetem positivamente as suas vidas e o seu bem-estar, formulação de estratégias de ação e participação e construção de programas e projetos de participação na sociedade.

Assim, os requisitos para a autonomização implicam educação e formação contínua para que cada um adquira as necessárias qualificações e aptidões que garantam a saúde, oportunidades económicas para aquisição de recursos e bens, canais adequados de participação e uma estrutura de valores institucionais sólida.

Enquanto seres humanos, implicados na mudança social, importa, antes de mais, aumentar e garantir a capacidade de autonomia para remover os obstáculos que a impedem. O reforço das capacidades individuais e coletivas garante a autonomização, na medida em que contribui para o desenvolvimento e autonomia do próprio Eu e da sociedade.

 

Educação e Autonomia

Os conceitos sobre educação variam conforme a época histórica em que se inscrevem, uma vez que um dado modelo educativo considerado eficaz numa determinada época poderá ser completamente desajustado noutra (SILVA, M. O., 2008).

"A educação não significa somente facilitar o desenvolvimento do indivíduo, mas orientá-lo na melhor direção, facilitando e reforçando o sentido da responsabilidade" (ROCHA, F., 1993, p 93).

A educação "é obra de cada um, cabendo ao Estado o encargo de afastar os obstáculos, aplanar caminhos e distribuir iniciativas, o que constitui um mérito grande e digno em favor da humanidade" (Idem, 1993;219).

Para DURKHEIM, (1977) a educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre as gerações que ainda não se encontram preparadas para a vida em sociedade. Segundo PARDAL (1977, p 37), "cada sociedade faz do homem um certo ideal tanto do ponto de vista intelectual como físico e moral e que sendo uno constitui a parte básica da educação".

A educação numa sociedade globalizada tem o compromisso de preparar o ser humano e torná-lo autónomo, para viver, participar e partilhar a cultura nos seus diferentes contextos e vivências. Nesse sentido, a ampliação da consciência humana na conquista do espaço cultural e do mundo depende da capacidade das instituições educativas, mormente da família, em trabalhar pedagogicamente e garantir a cada um a autonomização.

A educação faz-se a ela própria no processo autêntico da sua existência, cuja meta é a libertação do homem. Podemos afirmar que a educação tem como objetivo, superar a falibilidade de condição do ser humano. A educação só faz sentido quando dirigida a um ser humano com consciência de que é falível, desde que a sua natureza lhe permita, a cada momento, construir o conhecimento para a ação que pretende realizar (Carvalho, A. 2002, citado por Silva, M. O, 2008).

A educação, na sua essência, deve conduzir o homem à felicidade e a encontrar a sua própria liberdade. Uma educação para o nosso tempo terá de deixar de ser o que foi, porventura em alguns momentos, a do passado, que era apenas mera transmissão de conhecimentos (SILVA, M. O., 2008).

A educação é inquestionável para a aquisição da autonomia, na medida em que o conhecimento e os saberes garantem as competências necessárias à vida, para a vida em sociedade e para totalidade histórica da vida.

Uma educação para a autonomia deve desenvolver o homem na sua totalidade, sem privilegiar esta ou aquela dimensão, mas trabalhar relacionalmente e racionalmente todas as dimensões que totalizam o ser humano e a sua vida em sociedade. Na verdade, não é somente a educação para a autonomia que forma a sociedade, mas a sociedade que, formando-se, assegura a educação, condição indispensável para a conquista da autonomia (FREIRE, 2000).

Como sabemos, na sociedade atual, ser autónomo implica ter qualidades intelectuais, estéticas, conduta moral, conceção crítica do mundo, domínio de línguas, habilidades de comunicação e capacidades de gerar novos modos de pensar e de agir. Nesse sentido, a educação deve ser repensada segundo as exigências do mundo em permanente mutação e os princípios da modernidade reflexiva. Nesse contexto, a educação precisa assumir o seu verdadeiro papel na formação da consciência crítica enquanto valor central na defesa de um projeto de cidadania moderno e atualizado que promova a liberdade e a autonomia. A decisão pessoal, o exercício livre da vontade e a consequente responsabilidade individual pelos comportamentos pessoais e sociais são conceitos básicos da autonomia

A autonomia não é apenas um princípio, mas uma qualidade dos seres humanos que lhes permite auto-governarem-se, decidirem por si próprios, fazerem as suas escolhas pessoais próprias. A decisão para se ser autónomo implica uma bolsa de exigências tais como: consistência, independência, autocontrolo, capacidade de resistir à autoridade do outro ou da sociedade, conhecimento dos valores básicos, das crenças e dos objetivos de vida pessoal.

No universo dos cuidados em saúde, a autonomia da pessoa manifesta-se no consentimento ou negação consciente em relação a atos médicos e de cuidados assistenciais que lhe sejam propostos e na responsabilidade de tomar medidas precoces de prevenção e promoção da defesa da própria vida. A saúde é um campo multifacetado, para o qual convergem diversas conceções (filosóficas, culturais, políticas), que espelham diferentes compreensões do mundo, as quais somente serão compreendidas por homem capazes de exercitar em plenitude a autonomia.

No contexto do direito de decisão e de avaliação de si e do mundo, autonomia é a autodeterminação da pessoa com capacidade de julgamento e de discernimento e é vista principalmente como um suporte formal à teoria da responsabilidade por atos pessoais e/ou sociais ilícitos.

Na perspetiva da psicologia evolutiva, a autonomia é um conceito em acelerada revisão, com relevo para a imprevisibilidade da resposta individual às interações cognitivas e à importância do contexto na estruturação das decisões. Nesse contexto, atendendo ao mundo das relações, a pessoa situa-se num devir constante e em mutação permanente, no sentido de ser capaz de tornar humana a vida em plenitude, cuja capacidade de orientação o distingue do outro ser vivo, cabendo-lhe pela liberdade e autonomia, a responsabilidade de construir-se em liberdade e plenitude.

Na perspetiva ética, o princípio que defende o respeito pela autonomia, embora aceite, muitas vezes, é atenuado pela difícil aplicação em situações concretas pela subjetividade que em muitos casos as envolve, apelando-se, por isso, ao bom senso, às ordenações legais e às regras da boa prática.

No conceito de Autonomia duas condições são essenciais: a liberdade (independência do controle de influências) e a ação (capacidade de ação intencional). Desta forma, o indivíduo autónomo age livremente de acordo com o seu próprio plano de vida. Uma pessoa sem autonomia ou com autonomia diminuída ou fragilizada é incapaz de deliberar ou agir conscientemente.

A Pessoa é também um TU, diferente de um EU (Tavares, 1993). E com base nesta inegável verdade, que cada indivíduo é diferente na sua personalidade, com sentimentos e aspirações próprias, capaz da autonomia e liberdade construída na medida em que é um ser em relação permanente com o mundo e consigo próprio e que se define no seu confronto com os outros.

A autonomia pessoal e a responsabilidade humana devem, então, surgir como pólos de um mesmo campo de intervenção. A autonomia implica conhecimento, a responsabilidade impõe-se pela competência científica, técnica, relacional, humana e social. 

Numa perspetiva sociológica, autonomia implica noção de cidadania, na medida em que ninguém pode desenvolver a plena liberdade pessoal e sentir-se autónomo se está angustiado com a pobreza, privado da educação básica, privado da saúde ou desprovido da ordem e direitos de decisão pública.

 

Fatores Implicados e Tipos de Autonomia

Na construção da autonomia estão implicados dois fatores: intrínsecos e extrínsecos. Os intrínsecos identificam a capacidade biológica, genética, emotividade e a personalidade. Os extrínsecos referem-se ao contexto histórico, ao meio social, às normas de socialização, ao contexto político, económico e cultural, ao direito e normas legais, aos modelos educativos, formas de agir (....).

Nesse sentido, o desenvolvimento da autonomia passa pelo desenvolvimento de estágios e por princípios impostos pela convivência com os outros (MARTINS, 2002).

Neste contexto, a autonomia perspetiva-se em diferentes contextos ou realidades, dependendo das condições e características intrínsecas e extrínsecas onde cada um se insere. Entendida numa perspetiva genérica, pode ser definida como a condição para a independência, habilidade de pensar, sentir e agir por conta própria (KULBOK, 2004; FLEMING, 2005).

Na perspetiva do desenvolvimento biopsíquico, autonomia implica um processo ativo e permanente que envolve independência e, ao mesmo tempo, preservação da ligação com a família e meio social sobre a influência de variáveis como: autoestima, perceção do ambiente, relações com autoridade e desejo de independência (KULBOK;2004). 

Deste modo, a autonomia sofre a influência de variáveis como: estrutura familiar, os processos de comunicação, presença ou ausência de controlo e ambiente emocional que envolve o indivíduo nas suas metas e habilidades a nível: cognitivo, funcional e emocional (FUENTES, 2001).

Autonomia cognitiva - refere-se à perceção das oportunidades e desejos, na medida em que as características e qualidade dos processos cognitivos são a base que garante ao indivíduo a possibilidades de fazer suas próprias escolhas.

Autonomia funcional refere-se à perceção de estratégias com base no autorrespeito e autocontrole, as quais implicam capacidade para tomar decisões e capacidade de ser responsável.

Autonomia emocional - relaciona-se com os processos de independência emocional focados na separação e afastamento da família e entende-se como a capacidade de decidir e agir por si mesmo, ainda que sob a influência do contexto em que se insere (KULBOK, 2004). A falta de autonomia no âmbito psicológico, impede discussões abertas sadias, gera violência e impede a mudança.

Autonomia afetiva - prende-se com a capacidade de superar as carências afetivas através da atitude e habilidade em dar e receber afetivamente e multidimensionalmente. É no contexto afetivo que a família é imprescindível enquanto base da construção social e fonte primária da harmonia, do amor, do apoio, do afeto e é nela que nascemos, crescemos e desenvolvemos proteção face aos perigos de vária ordem. Nela, encontramos identidade, sendo também através dela que o ser humano encontra o equilíbrio biológico, psicológico e social e por via disso, se constrói autonomia e consciencialização.

Autonomia ética - implica a superação de imaturidades comportamentais e implica responsabilidade de ação e decisão racionais dentro do respeito pelas normativas éticas e deontológicas.

Autonomia estilística - prende-se com a capacidade de desenvolvimento de um estilo próprio e adequado às próprias necessidades definindo o modo de raciocinar criticamente a personalidade.

Autonomia financeira - relacionada com a superação das limitações financeiras pelo conhecimento e capacidade de investimento responsável e crítico e pela capacidade de gerir adequadamente os bens pessoais e sociais.

Autonomia ideológica - relativa à superação de limitações do pensamento pela conquista da liberdade de pensamentos próprios transmitidos pela qualidade e adequação dos processos de comunicação.

Entende-se por comunicação todo o processo pelo qual uma pessoa transmite a outrem os seus pensamentos, sentimentos e ideais; ou seja, emite informação, dá a conhecer os seus sentimentos e decisões, põe em comum com os outros aquilo que é dela (a interioridade), permite aceitar e ser aceite, receber ou enviar informações, ensinar e aprender.

Podemos, então, definir comunicação como um processo de reciprocidade, permitindo o relacionamento com todos os seres humanos e com o meio. A comunicação é uma atividade humana e, como tal, tão complexa e multifacetada como o próprio homem. Baseia-se num processo de interações e feedback facilitado pelo relacionamento totalizante e possibilitado pela utilização da linguagem específica do homem: a fala.

Autonomia para psíquica - independência das formas de pensar e raciocinar de forma lúcida e conscientemente crítica, independentemente das perceções de outrem (MACHADO, 2009).

Autonomia económica - capacidade de gestão dos bens pessoais, empresariais, institucionais ou estatais de forma racional e consciente sempre na mira do melhor equilíbrio social.

Autonomia política - relacionada com a liberdade, fortalecimento e independência das escolhas sociais e políticas. As escolhas são tomadas livremente independentemente das ideias, influências, interesses, intenções ou pareceres de outrem.

A autonomia no trabalho - referente à liberdade no exercício das funções e realização de tarefas ou competências profissionais.

A autonomia no trabalho é entendida como um espaço de decisão e de intervenção nos processos e dinâmicas do trabalho, abrangendo também, a possibilidade de autocontrolo e de autoavaliação, participação na organização e no funcionamento da instituição, espírito de iniciativa e adaptabilidade, criatividade e iniciativa, tomada de decisões conscientes, oportunidade de influenciar as decisões sobre mudanças na organização (COMISSÂO EUROPEIA, 2006).

O trabalho é fundamental na inserção social e é condição para a obtenção de direitos sociais, sendo um meio para a preservação da autoestima e do reconhecimento pessoal e social (CINARA L., 2002). O trabalho enquanto realização pessoal significa a possibilidade de obter a própria expressão da retribuição simbólica em termos de realização de si mesmo. Assim, o trabalho é um meio para a garantia da autonomia.

Autonomia cultural e ideológica - prende-se com o desenvolvimento e promoção dos modos de pensamento e comportamento identificados pela cultura social e individual, livre iniciativa, modelos e tipo de educação, escolhas e decisões próprias, pluralismo de valores, estilos de vida próprios e escolha de atividades de lazer (....).

Autonomia psíquica - caracteriza-se pela adaptação emocional e social, capacidade de decisão, capacidade de iniciativa, originalidade, capacidade de autocrítica, capacidade de comunicação, aquisições cognitivas ajustadas, organização e tomada de decisões conscientes e racionais.

A autonomia como condição de autodeterminação é atualmente considerada como um bem necessário gerador de conhecimentos e de decisões individuais e coletivas. Assim, podemos afirmar que a autonomia é uma condição de sobrevivência, na medida em que somente a pessoa autónoma poderá obter sucesso a vários níveis como: económico, psicológico, cultural, social, politico e mesmo biológico (CASTORIADES, 2000).

Na construção plena da autonomia estão implicados todos os fatores acima referidos. Como sabemos, a natureza humana encontra formas diferentes de se tornar autónoma mediante as suas qualidades biológicas e psíquicas muitas vezes implicadas com nas circunstâncias do meio. De facto, a personalidade humana apresenta características que definem o comportamento do indivíduo durante o ciclo de vida. Desta forma, é necessário conhecer as capacidades e qualidades que cada indivíduo comporta. Neste sentido, para além dos diferentes modos ou diferentes formas que caracterizam a autonomia, uma pessoa para se tornar efetivamente autónoma deve ter:

* Espírito de iniciativa - traduz-se pela capacidade de se organizar em grupo e realizar ações, sem que para isso tenha sido solicitado;

* Perseverança - capacidade de realizar ações diversas e capacidade para ultrapassar possíveis obstáculos com base em objetivos;

* Criatividade - reveladora da capacidade de imaginação inerente à criação de algo original e adaptável às circunstâncias e vivências diárias, de forma a evitar certa monotonia, passividade, visando a inovação, a mudança e o progresso social;

* Sentido de organização - revelador de habilidades, desenvolvidas num plano lógico   e detalhado com a finalidade de orientar a sua atividade, tendo em vista os objetivos pretendidos;

* Espírito crítico - traduzido pela capacidade de pensar de forma analítica e sistemática, aplicando princípios fundamentais ou conceitos de análise de diferentes problemas ou situações;

* Autocontrolo - capacidade de reconhecer-se em plenitude, poder manter a serenidade em situações de índole emotiva ou de "stress" utilizando um espírito de improviso sem prejuízos;

* Atitude de liderança - reveladora de habilidades e responsabilidades de organização, quer em grupo ou mesmo individual, reunindo esforços no sentido de uma eficácia e eficiência profissional;

* Persuasão - traduzida pela qualidade de converter no sentido positivo, pela obtenção de apoios com a finalidade de realizar objetivos ou certezas de índole pessoal e/ou profissional;

* Autoconfiança - traduzida por um sentimento de confiança e de segurança, crédito nas suas capacidades, habilidades, saberes e julgamento num horizonte de abertura em defesa de valores individuais, coletivos e sociais;

* Perceção e interpercepção nas relações pessoais - identificada pela habilidade de ver no outro as preocupações, interesses ou estados emotivos que o envolve, reconhecendo-o, respeitando-o e interpretando situações críticas e, de forma harmoniosa, procurando ajudá-lo na construção da sua personalidade;

* Preocupação e solicitude - manifestada face aos outros e ao mundo que o envolve, caracterizada pela defesa e garantia da segurança e tranquilidade.

Tendo como referência todas estas particularidades e características, podemos afirmar que uma pessoa autónoma tem capacidade para refletir e decidir com liberdade e responsabilidade para tomar livremente as suas opções e os seus percursos de vida na partilha com os outros a partir das dimensões; "o saber", "saber fazer", "saber ser ", saber estar", "saber aprender a aprender.

 

Conclusão

No mundo atual em que as instituições, organizações políticas, económicas e sociais procuram adaptar-se a um novo "tipo" de desenvolvimento, marcado pelo progresso científico e tecnológico, a autonomia tem destaque privilegiado no contexto relacionado com a liberdade de ação e de opção no seu sentido lato.

Neste sentido, a educação é a pedra basilar na conquista da autonomia e, deve ser repensada, segundo as exigências do mundo atual e as implicações da evolução científica e técnica. Nesse contexto, a educação precisa assumir seu verdadeiro papel na formação da consciência crítica, disseminando a autonomia como um valor central na defesa de um projeto de vida que promova a liberdade integral do homem.

Ainda que conscientes das oportunidades e ameaças que se perpetuam ao longo dos tempos, devemos fortalece as conceções de identidade coletiva, do direito de liberdade no sentido de garantir a plena e autêntica liberdade de ação. Para que exista autonomia, o direito de liberdade de decisão deve ocorrer num clima de plenitude biopsiquica, jurídica, pedagógica, formativa, patrimonial e de gestão.

Autonomia esteve presente ao longo dos tempos em todas as sociedades da história humana e sempre coloriu as discussões e reivindicações individuais e coletivas, os movimentos sociais, as práticas culturais, as tomadas de decisão de organizações e as relações de interpoderes como: legislativo, judicial e executivo.

A autonomia opõe-se à dependência da mesma forma que a liberdade se opõe ao determinismo. Quanto mais independentes de uma cultura, mais hipóteses existem de desenvolver a autonomia. As pessoas devem ser autónomas nas escolhas pessoais e profissionais para estarem habilitadas a exercer uma autonomia de decisão sobre processos culturais, de inovação e de socialização.

Sermos autónomos é, acima de tudo, termos capacidade para aprender a aprender e para resolver os problemas que vão surgindo no dia a dia. Somente as pessoas autónomas conseguem obter o conhecimento, a criatividade, liberdade de decisão e comunicação enquanto cidadãos implicados na construção de uma sociedade sadia no seu sentido mais lato.

A Autonomia não pode ser entendida como autodeterminação, mas como uma necessidade básica necessária ao desenvolvimento pleno da personalidade, na medida em que, legitima as opções de vida e as próprias escolhas.

Desta forma, o conceito de autonomia implica um processo ativo, permanente e gradual inscrito num percurso progressivo e contínuo de educação e formação, pois só desta forma se obtêm a autonomia e a autonomização. Na obtenção de autonomia, impõem-se condições e aptidões: capacidade de decidir, de processar e selecionar as informações, criatividade e espírito de iniciativa, linguagem e comunicação adequadas; conhecimentos técnicos e científicos atualizados, formação profissional contínua, capacidade física e psíquica, entre outros aspetos fundamentais à autonomização.

À guisa de apontamento final, podemos afirmar que a autonomia constrói-se e constitui-se como necessidade básica, na medida em que acompanha a racionalidade tecnológica e científica (KULBOK, 2004).

Por último, podemos afirmar que a construção de espaços que contemplem o desenvolvimento do conhecimento tendo em mira reforçar a autonomia e a autonomização individual e/ou coletiva devem ser apanágio de qualquer sociedade.

 

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