Sindicalismo na Revolução de abril

Autor: Américo Nunes
Editora: Edições Avante, 2010

Estas "Memórias" de um destacado dirigente sindical da hotelaria e da CGTP, incidem sobre a experiência pessoal, profissional e sindical do autor, hoje reformado da profissão e sem atividade como dirigente sindical. Temporalmente, abrangem três períodos: o imediatamente anterior ao 25 de Abril, com tentativa de participação no sindicato corporativo, o imediatamente seguinte à Revolução, com as múltiplas lutas, convergências, divisões, e experiências de reestruturação sindical, não só no seu setor mas também em muitos outros terrenos, como o da função pública, o dos CTT, o da TAP, o dos químicos, e o que veio a assistir aos processos de consolidação da CGTP no "Congresso de Todos os Sindicatos", e de formação do Movimento Sindical Carta Aberta e da UGT. Tal como o autor, muitos dos envolvidos no movimento sindical da hotelaria, no qual a princípio participavam milhares de pequenos patrões, só posteriormente definiram opções partidárias, sendo que nem sempre estas determinaram alinhamentos sindicais.

O texto é rico em apontamentos sobre acontecimentos ainda hoje pouco divulgados, tais como a tentativa de intimidação do Presidente da República António de Spínola numa assembleia de sindicalistas por si convocada, e da resposta espontânea e muito aplaudida do Presidente do Sindicato de Jogadores, Artur Jorge, a primeira fixação do salário mínimo nacional (no montante de 3300 escudos avançado pelo Governo, quando os sindicalistas traziam no bolso uma proposta de apenas 3000) e a decisão, internamente controversa, de tentar promover a sindicalização das mulheres dos bares do Cais do Sodré, muito antes de pudicamente se ter criado o termo "casas de alterne", e de uma portuguesa ter organizado sindicalmente as "trabalhadoras do sexo" do Reino Unido.

É também assaz reflexivo, dando conta da influência a todos os níveis, por vezes ressentida pelos outros setores, dos metalúrgicos, classe entretanto liquidada pela reestruturação do aparelho produtivo, critica como um dos maiores erros da Inter o processo de verticalização que (exceto no caso dos serviços sociais universitários, que almejavam um estatuto de função pública) levou entre os trabalhadores da hotelaria a mais dessindicalizações do que passagens para os sindicatos verticais, e também a manutenção por tempo excessivo dos sindicatos de base distrital. Faz uma defesa muito firme da democracia sindical e, corajosamente, aponta um ou outro caso em que, erradamente, o autor se deixou convencer a não atuar segundo esse princípio. Dá relevo ao papel de dirigentes que não o continuaram a ser por razões alheias ao movimento sindical, tais como Canais Rocha e Daniel Cabrita, e de antigos dirigentes que optaram por outros rumos políticos, como Rosa Maria Marques, Carlos Mamede e Vieira Mendes.

O livro insere com todo o rigor referências aos materiais utilizados, incluindo gravações audio de conversas com antigos dirigentes e apontamentos do já falecido Álvaro Rana. Uma ou duas páginas de bibliografia, a final, ficariam bem numa nova edição.

Américo Nunes, filiado no PCP, é um dirigente histórico da CGTP que, no início de 2004, deixou a direção da central sindical por sua iniciativa.


Nuno Ivo Gonçalves

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