A Pesquisa Universitária como Vocação

Prof. Dr. Jean Lauand
Prof. Titular FEUSP
jeanlaua@usp.br

Alguns eventos ligados à minha recente aposentadoria na Universidade de São Paulo impuseram-me o dever de olhar retrospectivamente para meu trabalho investigativo e externar algumas considerações a respeito.

Ao rever uma trajetória de pesquisador, corre-se o risco de tentar "a posteriori" racionalizar, apresentar as coisas como se houvesse uma consciência dirigente, um grande projeto, que, agora, simplesmente, o próprio pesquisador trataria de objetivar e externar. Na verdade, a pesquisa, suas grandes linhas, suas trajetórias, são resultantes da tensão dialética entre circunstância e vocação (para usar os conceitos - tão próprios para esta ocasião - de trayectoria, circunstancia e vocación elaborados por Ortega); e não somos plenamente conscientes delas no momento em que estão sendo percorridas, nem sequer mesmo (estamos falando de consciência plena...) quando - anos depois - nos debruçamos sobre elas.

Seja como for, esta reflexão quer identificar alguns aspectos dessas trajetórias num esforço consciente de apreensão. Ocorre aqui aquele fenômeno gramatical (e na verdade "mais do que gramatical"; que se dá no latim, no grego e em outras línguas) conhecido como "voz média": uma operação que não é propriamente ativa nem passiva, mas que, sendo do sujeito, é-lhe exterior (ou vice-versa...): o exemplo clássico é o do verbo nascor (nascer - eu exerço ativamente a ação de nascer ou, pelo contrário, sou nascido?) e - mais propriamente aplicado ao caso - o do verbo loquor: é falando para os outros que falo para mim mesmo...

E é que a circunstância traz - entre outros fatores - a presença do casual em nossas vidas e carreiras - encontros e possibilidades que se abrem inesperadamente - uma presença real, que ocupa lugar principal nelas: é muito fácil a posteriori narrar a vida profissional como se seus marcos obedecessem a uma férrea lógica consciente de conquistas e a uma determinação pré-estabelecida da vontade: os fatos curriculares encaixando-se logicamente como que por encanto.

É fácil, mas - pelo menos aqui - seria simplesmente falso. Certamente, há uma vocação, uma força interior que impele a pesquisar e mesmo a encaminhar as pesquisas em geral para um determinado sentido - que no meu caso inclui a apaixonada busca da ponte entre o abstrato e o concreto (tão ligada ao ensino) em minhas investigações sobre educação medieval, Tomás de Aquino, cultura árabe e filosofia: em algumas questões de ética (e principalmente sobre a virtude cardeal da Prudentia), de linguagem, de arte etc.

Mas essa vocação se expressa nas possibilidades dadas, e por isso falamos em trajetórias, resultantes da dialética vocação-circunstância.

A circunstância - ou mesmo o acaso - foi determinante em diversas ocasiões: ao sabor de imprevistas circunstâncias decidi empreender o mestrado na Faculdade de Educação em meados da década de 70 (abandonando um mestrado em Álgebra Linear no Instituto de Matemática); também uma dose de acaso pautaram as circunstâncias em que ingressei como professor na Faculdade de Educação da USP (a convite do saudoso Prof. Dr. Roque Spencer Maciel de Barros), e quando, no começo da década de 80, aposentou-se meu primeiro grande mestre, o saudoso Prof. Dr. Ruy Afonso da Costa Nunes, e  - também inesperadamente - passei a ensinar História da Educação na Idade Média, estimulado pelo então Chefe do Departamento, o Prof. Dr. Celso de Rui Beisiegel, a quem tanto devo.

A partir daí, o estudo de grandes temas e personagens da Idade Média, sobretudo Tomás de Aquino, passou a ser um compromisso profissional, alimentado, ademais, pelo diálogo constante com 100 ou 200 alunos, um semestre por ano... A ausência (naquela época) praticamente total entre nós de textos medievais levou-me a - com a generosa ajuda dessa figura tão notável do saber, o saudoso Prof. Dr. Dom João Mehlmann - a empreender traduções com estudos introdutórios - ao menos uma nova em cada semestre - de alguns importantes pedagogos e filósofos medievais, que apareceram reunidas, primeiro em Educação, Teatro e Matemática Medievais (Perspectiva-Edusp, 1986) e depois em Cultura e Educação na Idade Média (Martins Fontes, 1998), pela mão do extraordinário editor Luiz Rivera.

A circunstância inclui também o âmbito das inovações tecnológicas. Quando escrevi o Memorial para o concurso de Professor Titular na FEUSP, em 2000, ocorreu-me o título "Da Idade Média para a Idade Mídia". De fato, a época de minha carreira na USP (em 1970 como aluno e desde 1981 como professor até este ano de 2009) foi uma época de enormes transformações tecnológicas.

Precisamente em 1970, a USP ofereceu pela primeira vez (e eu, recém-ingressado na Escola Politécnica, participei desse curso) a disciplina "Introdução à Computação", ainda com o jurássico sistema de perfuração de cartões... Só no final da década de 80 teríamos microcomputadores e os primeiros programas de edição de texto.

Para minha dissertação de mestrado e tese de doutoramento, a grande inovação tecnológica era a máquina de escrever elétrica, que permitia corrigir algumas poucas letras; e.... tesoura, fita adesiva e xerox (esta também recentemente popularizada). A revisão das provas de meu primeiro livro, Educação, Teatro e Matemática Medievais, foi feita junto ao linotipista, derretendo chumbo e realizando essencialmente o mesmo processo de Gutemberg, mais de 500 anos antes... E, quando comecei a lecionar, cópias de pequenos textos para alunos, só no velho e bom mimeógrafo, hoje, também ele, peça de museu...

O aluno que ingressa hoje na universidade nem imagina as facilidades de que dispõe... Minha tese de doutoramento envolvia caracterizações de alguns conceitos fundamentais de Pieper - admiração, teoria, contemplação, mistério etc. - e, portanto, exigiu centenas de intermináveis fichamentos; hoje, com a obra completa de Pieper em um CD, com mecanismo de busca, o mesmo trabalho seria feito em algumas poucas horas.

Na época, 1986, escrevi sobre o hipertexto para a recém-fundada Revista Brasileira de Educação:

 

Desse modo, uma primeira conseqüência evidente desse recurso incide sobre a coleta de dados para pesquisas do tipo "O conceito x na obra de tal pensador", que, como se sabe, são (ou eram...) uma das constantes em teses e dissertações acadêmicas em ciências humanas. Tal tarefa, que podia, em alguns casos, até apresentar-se como impossível ou consumir anos de trabalho de equipes especializadas, resolve-se agora em poucos minutos (naturalmente, o hipertexto não poderá nunca suprir o conhecimento que permite discernir o que e como buscar e a interpretação desses dados). http://www.anped.org.br/RBDE02.pdf

 

Se meu mestrado e doutorado foram ainda com tesoura e xerox, bem diferente foi a tese de livre-docência, em 1995. Três anos antes, havia sido lançado comercialmente o primeiro CD de hipertexto de autor, que, felizmente, contemplava a obra completa de Tomás de Aquino. Lançado na Itália pelo jesuíta Dr. Roberto Busa (ele mesmo um notável pesquisador da obra do Aquinate) e pioneiro mundial neste tipo de programa, instantaneamente o CD varria as cerca de nove milhões de palavras que constituem os cerca de 100 livros e opúsculos de autoria de Tomás, constituindo um volume de texto da ordem de trinta Bíblias. E apresentava, tela após tela, as incidências de uma ou duas palavras na obra de Tomás. E naquele 1995, dispunhamos também da Bíblia, do novo Catecismo católico e do Alcorão em hipertexto (neste caso, as peculiaridades da língua árabe dificultavam a pesquisa: as palavras árabes não têm um radical fixo, flexionam-se no meio, e juntam-se às preposições...).

Há hoje facilidades também para a aquisição de livros e artigos: em formato impresso ou eletrônico: sem falar na imensa quantidade de pesquisas disponíveis gratuitamente na Internet. Só o nosso CEMOrOc (Centro de Estudos Medievais -Oriente e Ocidente) mantém - em parceria com o IJI - cerca de mil e quinhentos artigos na rede...

Nesse quadro, valorizam-se ainda mais, hoje, virtudes já exigidas antes do pesquisador, como a da sólida formação em seu campo ou a de poder ler em diversos idiomas e também novas qualidades como a arte de saber como buscar o que lhe pode interessar na mídia eletrônica.

Ao mesmo tempo que o pesquisar foi facilitado por essas revolucionárias inovações, surgiu recentemente o problema de avaliar as pesquisas - e mesmo de quantificar seu "valor" - e de estabelecer os critérios para essa valoração. O pesquisador é avaliado (e credenciado...) pela quantidade e qualidade de suas publicações.

Esses critérios são aplicados e afetam o próprio credenciamento do pesquisador, que, por exemplo, se não atingir um certo índice, estará impedido de exercer suas atividades de pós-graduação. Mas os critérios são problemáticos e nem sempre estimulam a pesquisa: tornam difícil, por exemplo, iniciar uma nova revista acadêmica: todos os que nela publicarem nos primeiros números serão punidos com pontuação zero até que a revista - anos depois de sua fundação - venha a receber sua avaliação.

Uma formatação econômica como a de nossa revista Mirandum faz com que um artigo nela publicado ocupe um número de páginas que é metade das que ocupariam em algumas congêneres: o que pode significar pontuação zero para um artigo que não atinja o mínimo de páginas requerido: o mesmo artigo valeria muitos pontos em uma formatação mais expandida. O mesmo se dá com livros e capítulos de livros: em dado momento chegamos a ter um índice de valores de editoras...

Somos praticamente obrigados, além do mais, a integrar grupos de pesquisa; a obter financiamento para elas; a apresentar cronogramas de investigação etc.

Circula amplamente na Internet a piada que mostra como nem Deus pode se qualificar como pesquisador. De fato:

Ele só tem uma publicação

Esta publicação não foi escrita em inglês

A referida publicação não contém abstract, keywords e referências bibliográficas

Ele não tem publicações em revistas indexadas ou com conselho editorial com pareceristas

Ele criou o mundo. Mas não tem novos resultados nos últimos cinco anos

Dedicou pouco tempo ao trabalho (apenas 6 dias seguidos)

A comunidade científica tem muita dificuldade em reproduzir Seus resultados

Além das Suas horas de orientação serem pouco freqüentes, Ele só atende Seus alunos no cume de uma montanha

Expulsou os Seus dois primeiros orientandos por quererem saber demais

Não teve aulas e nem fez mestrado com PHDeuses

Não defendeu teses de Doutorado, Livre Docência

Não fez proficiência em inglês

Não existe comprovação de participação Sua em bancas examinadoras e de publicação de artigos no exterior

Etc.

Jocosidades à parte, temo que uma das disfunções dessa febre avaliacionista seja a de não estimular a vocação. Como editor, recebo com frequência artigos que seguem com todo rigor as normas técnicas (aproveito para registrar uma queixa de leitor contra a exigência de que as notas venham ao fim do texto e não no rodapé), mas não trazem nenhum insight, nenhuma paixão... Confesso que, como parecerista, a última coisa que observo é se os artigos seguem esses padrões (por vezes tão divertidos, como quando temos que ler: "como diz Platão (2001: p. 145))" e pauto-me, antes, pelas perguntas: qual é a contribuição vital desse artigo? O que ele realmente diz?

As ciências humanas não devem sucumbir à tentação de imitar os padrões de pesquisa (e de apresentação...) da Matemática, da Física ou da Medicina...; sua vocação é outra. Cabe aqui lembrar mestre Pieper: se o rigor dessas ciências é "não deixar passar nada" (nichts durchlassen) que não tenha sido comprovado; o do filosofar é "não deixar de fora nada" (nichts auslassen), nada de significativo. E aí, como diz T. S. Eliot, precisamente a propósito da obra de Pieper, o decisivo é insight e wisdom. Se já é problemático quantificar o valor de uma pesquisa em Matemática ou Física, como avaliar o quantum (não nos iludamos: o qualis acaba em quantum) de fatores como wisdom ou insight? Ou o verstehen de um historiador?

Ao rever minha trajetória de pesquisas - tão marcada pela circunstância, mas também pela vocação - gostaria de, brevissimamente, recordar alguns marcos mais significativos. Em meu mestrado procurei apontar as distintas filosofias da educação subjacentes ao ensino de Geometria Analítica no último ano do ensino médio: na época, no Rio de Janeiro, ensinava-se essa disciplina com Álgebra Linear e vetores; em São Paulo, pelo contrário, com o método tradicional, clássico. Para além da mera eficiência, dos resultados, por assim dizer, matemáticos do ensino, estavam, na verdade, em jogo, duas visões de valores, de homem e de mundo, das quais ninguém parecia se ocupar.

Para o doutorado, dispunhamos na época de poucos orientadores na FEUSP e, para não ter de abdicar de meu tema - o pensamento de Josef Pieper - tive de passar mais de um ano sem orientador, até que o saudoso Dr. Nicolas Boer se dispusesse a assumir esse posto. E é que se tratava de meu tema, uma questão de vocação acadêmica: eu não podia simplesmente aceitar um outro assunto, dos que me foram oferecidos (por excelentes orientadores), mas que não correspondesse à paixão investigativa, sem a qual não se faz pesquisa de verdade.

A tese de livre-docência - já com os recursos de Santo Tomás, Alcorão e Bíblia em hipertexto - foi escrita muito rapidamente: estabelecia conexões entre a tradição de provérbios árabes e a virtude cardeal da prudentia em Tomás. Levado pela dialética das descobertas na dinâmica da própria investigação - percorrendo alguns milhares de provérbios árabes e a maravilhosa doutrina da prudência -, atrevo-me a dizer que foi mais fácil fazer a pesquisa do que teria sido apresentar um projeto, que, no caso, seria pura enganação...

O mesmo se diga de outras pesquisas que considero importantes, como uma do ano passado, a dos "se" semitas na interpretação do Evangelho e que foi publicada no Brasil, no Quodlibet Journal of Theology (USA) e na Officina di Studi Medievali (aliás um dos problemas mal resolvidos da qualificação de nossa produção é o de como avaliar as inúmeras revistas estrangeiras). Pesquisa extremamente apaixonada, foi feita de modo muito mais rápido do que o processo de aprovação para um financiamento... Impossível de ser planejada ou posta em um projeto...

Apaixonada não significa necessariamente rápida. Por acaso contabilizei - e foram cerca de trezentas horas de aplicação direta - o tempo de preparação de minha aula de 50 minutos para o concurso de professor titular. Versou sobre o Logos Ludens, o caráter lúdico de Deus criador: também aí impossível planejamentos detalhados: novas questões iam se apresentando na medida em que outras eram resolvidas; questões semânticas como o sigificado da palavra "dia" nos seis dias da Criação e a complexa exegese que levou Tomás a afirmar o Deus brincador.

O lúdico, aliás, tem sido uma das constantes temáticas em minhas pesquisas e publicações; sobretudo no que se refere à educação medieval e à construção do humor, a partir do neutro.

Um dos mais importantes insights deu-se com a leitura do Alcorão: ao deparar na Sura 4, An-Nissa', um problema também contemplado pelo Evangelho, onde recebe tratmento diametralmente oposto: o problema da herança. Enquanto o Alcorão determina detalhadamente as porções da herança; Cristo recusa-se terminantemente (Lc 12, 14) a estabelecer critérios concretos de partilha entre herdeiros.

Naturalmente, essa discrepância convida a um estudo sobre as correspondentes teologias e, de um modo muito especial, a dirigir o olhar sobre o nascimento da Álgebra, que, não só tematicamente, será uma "ciência árabe".

Como se sabe, Al-Khwarizmi, ao escrever o primeiro compêndio de Álgebra, dedica metade do livro a, literalmente, equacionar a sura 4. E mais, baseando-nos nas pesquisas de Lohmann sobre as línguas, procuramos mostrar a relação entre Álgebra e estruturas do árabe; do mesmo modo que a Geometria corresponde à língua grega.

Trajetória, vocação, circunstância, acaso? Seja como for, eu nunca teria podido prever que minha formação em matemática iria levar-me - ao tropeçar com a herança no Alcorão - a refletir sobre as estruturas das línguas e as teologias, que continuam presentes nas grandes disputas - não só intelectuais - de nosso tempo.

Falávamos das possibilidades que a internet abre para o pesquisador contemporâneo. Dentre seus infinitos recursos, está o de possibilitar o contato com investigadores de todo o mundo. E, de fato, muitos importantes contatos internacionais - como os professores que temos trazido para nossos Seminários Internacionais do CEMOrOc que se realizam anualmente já há quase dez anos - foram estabelecidos a partir da Internet. Um exemplo entre muitos: há cerca de sete anos eu era um dos cem participantes de uma lista de discussão na Internet, quando recebi um mail de um outro participante - este mais leitor do que escritor na lista - comentando benevolamente algumas de minhas intervenções: era o Prof. Dr. Paulo Ferreira da Cunha. Imediatamente surgiu uma sintonia e uma amizade, percebi que poderia aprender muitíssimo com esse novo amigo internauta, trocamos livros pelo correio e já no ano seguinte, 2002, começaram suas conferências para nossos alunos em São Paulo, todos os anos, perfazendo já mais de vinte, o que significou um enorme enriquecimento para nós, pois trata-se de um notável erudito e incomparável professor. Nesse mesmo ano, o Dr. Ferreira da Cunha fundou o IJI - que tanto tem promovido o saber jurídico, filosófico, interdisciplinar enfim, com seus notáveis congressos, publicações e atividades - e são já dezenas de revistas acadêmicas que temos publicado em conjunto.

Neste momento, em que inicio uma nova fase da vida acadêmica, alimento a esperança de que a necessidade de avaliação se faça protegendo e estimulando a liberdade, a criatividade e a vocação.

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